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postado por Li Stoducto em 5:58 PM
:: Terça-feira, Março 07, 2006 ::
A MULHER e o homem carioca
A mulher carioca é aquela que, na década de oitenta, usava um biquíni tão exíguo que foi apelidado de fio-dental. A mulher carioca pode ter sido Chiquinha Gonzaga, a primeira maestrina que o Brasil já teve, e que rompeu com muitos preconceitos do seu tempo. Pode ter sido Leila Diniz, escandalizando o Brasil dos anos sessenta com seu vocabulário, seu barrigão exposto de grávida e sua liberdade. Pode ter sido criadora ou intelectual em um tempo em que isto não era tão comum, como a pintora Tarsila do Amaral ou a arquiteta Lota Soares. Pode ter sido Nair de Teffé, que, rica, elegante e casada com o Marechal Hermes da Fonseca, foi a primeira caricaturista mulher da imprensa brasileira. Nair recebeu Chiquinha Gonzaga no Palácio do Catete e escandalizou muita gente ao permitir que Chiquinha tocasse o maxixe (música considerada sensual) 'Corta-Jaca' em um dos muitos bailes que promoveu como primeira dama. Não podemos esquecer da incentivadora das artes, Laura Alvim, que desejava ser atriz, mas que pelas convenções da época não podia se dar a este luxo e que, então, fez da sua casa em Ipanema (hoje 'A Casa de Cultura Laura Alvim', doada por ela mesma a cidade) um ponto de encontro para artistas de vanguarda. A casa de Laura era uma casa de festas e a culta Laura tinha estilo: vestia-se de preto, pintava as unhas de vermelho e escondia parcialmente o rosto com grandes chapelões. O Rio e suas mulheres lendárias, o que talvez seja explicado pela Lua, planeta feminino, conjunta a um Meio-do-céu em Peixes, signo feminino também. Não é de se estranhar que o Rio seja conhecido por suas mulheres, sejam elas as mulatas ou as 'garotas de Ipanema'.
A mulher carioca é Vênus em Aquário conjunto a Marte na casa nove. Uma mulher diferente (Aquário), que, muitas vezes, invade campos tipicamente masculinos (Marte). Uma mulher que pode ser muito intelectualizada (casa nove), ou que inspira a intelectualidade, como a musa Helô Pinheiro inspirou Tom Jobim. Mas, algumas vezes, também, uma mulher que paga um preço pelo seu avanço, pois Vênus encontra-se oposto a Saturno, a autoridade e aquilo que é estabelecido. Esta oposição também pode representar por vezes uma mulher com uma roupagem chocante, mas reprimida pelo sistema, como as 'cachorras do funk', cujas músicas têm letras que diretamente as denigrem. Segundo dados estatísticos, não são poucas as mulheres pobres cariocas vítimas de violência doméstica.
O homem carioca é também representado por Marte em Aquário. Marte conjunto a Vênus produz uma cidade em que o erotismo está sempre muito presente. Mas há um detalhe: é um erotismo aquariano. O calor da cidade faz com que roupas mais curtas e decotadas insiram-se no cotidiano sem maiores problemas. O erotismo carioca, com Saturno opondo-se a Vênus e Marte, é, muitas vezes, um erotismo disfarçado. É a olhadela depois que a moça ou o moço já passou. Em uma cidade cosmopolita (dois planetas pessoais importantes na casa nove), não fica bem o canino olhar provinciano ou atirar-se aos pés da estrela da televisão. É preciso ser um pouquinho blasé, o que é bem aquariano. O homem carioca pode ser o malandro (algo bem definido por Marte em Aquário em exato trígono com Netuno no versátil Gêmeos) ou então o 'menino do Rio, dragão tatuado no braço' (Netuno rege o mar, e, por conseqüência, os esportes marítimos, como o surf) ou simplesmente um homem que sabe conversar (signos do Ar envolvidos). Dizem por aí que onde os homens cariocas chegam provocam insegurança. Faz sentido se pensarmos em Aquário como aquele que vai transgredir um pouco a ordem, e através da sedução, do bom papo, da intimidade com as mulheres, já que Marte está conjunto a Vênus.
Carlos Cachaça, nascido em Mangueira, nas proximidades do morro, no dia 3 de agosto de 1902, foi testemunha da primeira vez em que os mangueirenses ouviram um samba. Até então, eles cantavam e dançavam o jongo e os lundus do folclore ou os maxixes que aprendiam nas festas da igreja da Penha, numa época em que o rádio ainda não existia (a primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade, surgiria em 1923). No carnaval, divertiam-se dançando nos cordões e nos ranchos.
Antes da existência do Morro de Mangueira, havia também o carnaval elegante, com bailes de máscaras realizados geralmente em hotéis. A classe média , por sua vez, aderiu imediatamente ao desfile dos carros alegóricos das grandes sociedades, dividida em torcidas a favor da Tenentes do Diabo, da Democrática e da Fenianos, as mais importantes da época, todas fundadas entre 1860 e 1870. Os pobres divertiam-se nos cordões, a primeira solução encontrada pelos foliões para brincar em grupo. Seus integrantes saíam fantasiados (mascarados, palhaços, diabos, reis, rainhas e outros), em dois tipos de cordões, o de "velhos"(todos dançavam envergados, imitando velhos) e os cucumbis, em que predominava a batucada, na base de adufos, cuícas e reco-reco. O cronista João do Rio dedicou várias páginas à descrição dos cordões.
Os ranchos carnavalescos surgiram no Rio de Janeiro em 1893, sendo o primeiro deles e o Rei de Ouro, fundado pelo baiano Hilário Jovino Ferreira, no bairro da Saúde. Em pouco tempo, os ranchos espalharam-se pela cidade, ganhando logo a preferência dos foliões pela sua música sempre lírica, pela dança e por apresentar novidades como o enredo, os instrumentos de cordas e de sopro e os personagens como a porta-estandarte e o mestre-sala, sendo estes cercados nos desfiles por meninos fantasiados conhecidos como porta-machados. O rancho mais famoso da história foi o Ameno Resedá, que contava, entre os seus admiradores, com o escritor Coelho Neto.
Desde 11 de maio de 1852, quando se inaugurou nas proximidades da Quinta da Boa Vista o primeiro telégrafo aéreo do Brasil, a elevação vizinha da Quinta era conhecida como Morro dos Telégrafos. Pouco depois, foi instalada ali perto uma indústria com o nome de Fábrica de Fernando Fraga, que produzia chapéus e que, em pouco tempo, passou a ser conhecida como "fábrica das mangueiras", já que a região era uma das principais produtoras de mangas do Rio de Janeiro. Não demorou muito para que a Fábrica de Fernando Fraga mudasse para Fábrica de Chapéus Mangueira. O novo nome era tão forte que a Central do Brasil batizou de Mangueira a estação de trem inaugurada em 1889. A elevação ao lado da linha férrea também começou a ser chamada de Mangueira, enquanto o antigo nome de Telégrafos permaneceu para identificar apenas uma parte do morro. Atualmente, Telégrafos, Pindura Saia, Santo Antônio, Chalé, Faria, Buraco Quente, Curva da Cobra, Candelária e outros são pequenos núcleos populacionais que formam o complexo do Morro de Mangueira.
O morro tinha dono. Era o visconde de Niterói (Francisco de Paula Negreiros Saião Lobato), que o recebeu como presente do imperador Pedro II. Mas ele já estava morto quando os primeiros moradores instalaram os seus barracões, e outros, mais espertos, construíam moradias para alugar, como foi o caso do português Tomás Martins. Padrinho do futuro compositor e poeta Carlos Moreira de Castro, que seria imortalizado pelo apelido de Carlos Cachaça, que aos oito anos de idade vivia no morro, aponta o padrinho como o verdadeiro fundador do Morro de Mangueira, por ter sido o primeiro a explorá-lo como local de moradia. Aos dez anos, Carlos Cachaça tinha a incumbência de assinar os recibos dos aluguéis, já que o português Tomás Martins era analfabeto.
Em 1908, a prefeitura carioca decidiu reformar a Quinta da Boa Vista e, para isso, demoliu dezenas de casinhas ali construídas por soldados que serviam no 9° Regimento de Cavalaria. Com a permissão de carregar os restos da demolição para onde bem entendessem, os militares escolheram instalar-se no Morro de Mangueira. Outro fato que serviu para aumentar a população da área foi o incêndio que, em 1916, destruiu inúmeros casebres do Morro de Santo Antônio, no centro da cidade. Surgia assim em Mangueira uma comunidade de gente pobre, constituída quase que na totalidade por negros, filhos e netos de escravos, inteiramente identificada com as manifestações culturais e religiosas que caracterizavam esse segmento social e racial. Do Natal ao Dia de Reis, em 6 de janeiro, conjuntos de pastores e pastorinhas percorriam o morro entoando as suas cantorias. Os católicos construíram uma capela a Nossa Senhora da Glória, que passou a ser a padroeira do morro. O candomblé e a umbanda tinham muitos adeptos, e alguns casebres serviam de templos, sendo o principal deles o de Tia Fé (Benedita de Oliveira), uma mineira (segundo Carlos Cachaça) ou baiana (segundo o neto Sinhozinho, presidente da Estação Primeira na década de 70), que trajava diariamente de baiana, e em cuja casa realizavam-se as grandes festas de Mangueira. Em 1935, houve uma tentativa de descendentes do visconde de Niterói de despejar os moradores do morro, mas estes foram socorridos pelo prefeito Pedro Ernesto. Uma nova tentativa, em 1964, feita por um português de sobrenome Pinheiro, que dizia ter adquirido os bens da família Saião Lobato, esbarrou num decreto do governador Carlos Lacerda, desapropriando todo o Morro de Mangueira.
INCÊNDIO DESTRÓI O TEATRO JOÃO CAETANO
26 de Janeiro de 1856
Há 150 anos (Sesquicentenário)
Carlos Eduardo de Almeida Barata
Mal ressurgiu das cinzas, a fênix se vangloriava vitoriosa, desde o último incêndio em agosto de 1851. Mas novamente a antiga maldição que sempre perseguiu o Teatro João Caetano, desde a sua construção, veio a galope, trazendo-lhe nova cenografia, mais vivaz, mais real, transformando-o em um verdadeiro inferno, na madrugada do dia 26.01.1856.
As labaredas iluminaram o céu do Rio de Janeiro, em época em que ainda engatinhava a iluminação a gás, com a recém-instalada Companhia de Gás, à beira do Canal do Mangue.
E uma projeção para o Natal de 2005, feita há 100 anos .
Carlos Eduardo Barata
1856 - O Natal: fragmentos históricos
No ano de 1856, a população do Brasil estava estimada em cerca de 7.677.800 habitantes. A população da Cidade do Rio de Janeiro era de aproximadamente 270 mil habitantes, dos quais cerca de 208 mil moravam nas freguesias urbanas.
Já nesse tempo festejavam com pompa e alegria a chegada do Natal e, naquela época as festas duravam duas semanas, de 24 de Dezembro a 6 de Janeiro, e o dia 7, estava fadado sempre a ser o dia mais triste da vida das crianças.
Muitos dias antes do dia de Natal era grande a azafama; nesta boa cidade; era o tempo de mandar as festas aos parentes e amigos, e delles receber as êtrennes, como se dizia em fins do século XIX em linguagem alambicada.
Viam-se grandes bandejas de doces, carregadas por pretos e pretas, cestos de gallinhas, leitões, atroando os ares com seus grunhidos, perús amarrados com fitas encarnadas ou verdes, compoteiras de doces cobertas por guardanapos rendados.
Os escravos davam o cavaquinho para ser os portadores de festas. pois era certa a gorgeta mais ou menos gorda para o mata bicho.
Passados quarenta anos, em fins do século XIX, mais precisamente em 1896, os costumes já haviam mudado, e as festas tornaram-se mais baratas:
Cifra-se na monomania das folhinhas, dos chromos e dos blocks, que se vendem nas lojas de papel, ou nos almanaques de anecdotas, vindos de França (os quaes, podem ser encontrados no Fauchon), nos marrons glacês, o sonho dos anjinhos de procissão, as nossas antigas amêndoas, já não têm cotação na praça.
Eis-nos em plena noite da missa do gallo. Ia uma balburdia pelas casas, havia uma inferneira pelas cozinhas, onde se preparava a ceia ou consoada para depois da missa e parte do jantar do grande dia.
É sabido pelos antigos, o que talvez ainda aconteça nos dias de hoje, 150 anos depois, de que quem menos se divertia eram os donos da casa, sempre cuidadosos para que não houvesse faltas, e gente da cozinha; eis porque nas aspirações de algumas crianças - segundo escreveu um antigo cronista em 1896 - de serem frades, pedestres, sacristãos, pedintes de almas; mas nunca serem cozinheiros.
Os Animais sacrificados Que havia porco em casa sabia-o toda a vizinhança pelos protestos da victima prestes a morrer com uma certeira facada; jorrava o sangue cuidadosamente guardado para diversas petisqueiras.
Carregadores de porcos - c.1820 - Debret
As gallinhas mostravam~se tristes e abatidas, prevendo o proximo fim, taes quaes candidatos derrotados em eleições.
Galinha para o Natal - Debret - c.1820
O perú, ao qual se tinha dado cachaça para tornar a carne mais macia, desconfiado de tanta esmola, preparava-se para o sacrificio, e bebedo como estava não devia sentir muito a passagem desta para outra vida.
AlIi a preta de confiança tractava do peixe, lá os moleques ralavam o côcco para o doce, negrinhas areiavam os talheres ou punham palitos no paliteiro. Aqui um preto velho aposentado depennava as galIinhas depois de um banho de agua fervendo, e mais além a mulata velha tirava os ossos ás mãos de vacca para fazer o apetitoso mocotó recheiado com ovos e farinha de trigo ( um verdadeiro quitute, desterrado dos cardapios ou menus dos nossos burguezes jantares).
Nem mesmo o Aragão
Nessa noite não se pregava olho. Das 10 horas em deante, depois do Aragão, começavam a repicar os sinos das egrejas, de maneira a ensurdecer.
Os sinos das igrejas do Rio de Janeiro, não só neste século XIX, mas nos anteriores sempre tiveram participação fundamental nos acontecimentos da cidade e na vida particular de cada indivíduo até meados do Século XIX, como bem lembro Sarthou.
Por ocasião das festas de Natal, nem mesmo o Toque do Aragão se fazia ser respeitado e, pela noite adentro, as algazarras se espalhavam pela cidade. Aragão foi o apelido dado a um dos mais populares sinos da Cidade Maravilhosa, instalado na Igreja de São Francisco de Paula, com 1m.04 de diâmetro, pesando 600 quilos, e fabricado no Rio de Janeiro, na oficina da rua de São Lourenço 44.
O nome se espalhou por aclamação popular, partindo de algum crítico gozador, pois trazia a memória do Desembargador Francisco Teixeira de Aragão, então Intendente de Polícia, que resolveu criar o toque de recolher, por edital de 03.01.1825. Às dez horas da noite no verão e às nove horas no inverno, ao bater insistente o sino da Igreja de São Francisco de Paula, por meia hora sem interrupção, todos os cariocas eram obrigados a se recolher. Nenhuma casa comercial podia funcionar.
Igreja de São Francisco de Paula Grande festa no largo de São Francisco, em 1826 - um ano após A criação do Toque de Aragão
Artigo 6.º do Toque de Aragão
Fica proibido, depois do toque do sino, estar parado, sem motivo manifesto, nas esquinas, praças e ruas públicas, dar assobios ou outro qualquer sinal. Essa proibição se estende aos negros e homens de cor antes dessa hora, mas depois que anoitecer.
O Toque de Aragão foi praticado durante cinqüenta e três anos, sendo suprimido em 1878.
Assim, naquele Natal de 1856, e nos que lhe sucederam, nem mesmo o Toque de Aragão era o suficiente para afastar o povo de suas festas, da algazarra, das buzinas, das rodas de música, e outras tantas manifestações. Assim, depois das badaladas do Sino do Aragão, avisando a chegada do ponteiro de minutos, na casa dos 12, enquanto o das horas apontava com exatidão para o número dez, em toda a cidade, como se fosse um entoar de gozação, repicavam os sinos de todas as igrejas. Era dia de Natal.
Festa, Música e o Natal de Rua
As ruas iam-se pouco a pouco enchendo, e ás portas dos templos desde as 9 horas já havia devotos para pilhar logar, baseados no direito do primi capientis.
Os capadocios afinavam os cavaquinhos e violões. Os gaiatos atravessavam as ruas arremedando o cócôrocô dos galIos, e, de quando em vez, foguetes no ar annunciavam que estava perto a hora solenne.
As egrejas mais concorridas eram S. Francisco de Paula, Misericordia, S. José, Carmo, a Cathedral, Sancto Antonio, São Bento e Ajuda, e em tempos anteriores a capelIa do Menino Deus, em MatacavalIos, cuja historia poetica é contada em muitas paginas pelo Balthazar Lisboa .
As sete primeiras igrejas citadas acima, na ordem (fora a Ajuda).
A não ser algum rôlo de capoeiras, algumas cabeças quebradas, algumas navalhadas, o resto corria bem, e acabada a missa cada qual se recolhia á casa para comer, descançar e esperar o dia 25. Muitas vezes havia danças e cantatas, que; se prolongavam até de madrugada.
Os Capoeiras - Tocador de Berimbau - Debret - c.1820
Não há uma descrição sobre a forma de ornamentação das ruas da Cidade, naquele ano de 1856; somente se fala da algazarra, das rodas musicais e do foguetório. No entanto, ao que parece, não existisse tal costume de se ornamentar os logradouros públicos e, se houvesse, certamente teriam retratado tal manifestação artística os grandes artistas da época, Debret, Ender ou Rugendas. Parece que tal costume somente aconteceu cerca de cem anos depois, em 1955, quando a Cidade do Rio de Janeiro entra para a história como uma das primeiras no mundo a criar a tradição do que chamavam de Natal de Rua, o que nada mudou com relação aos costumes atuais.
Alexandre Campos ao falar dos Natais de Rua, de cinqüenta atrás, assim define:
Defini-se como Natal de rua, a ornamentação colorida com lanternas, lâmpadas, enfeites típicos, das ruas, praças, casas comerciais, fachadas das residências particulares, por ocasião de Festa Magna da Cristandade. O Rio de Janeiro, foi a segunda cidade do mundo a ter um Natal de Rua, por volta de 1955.
É originário de São Paulo, onde foi criado pelo Barão Carlos Massei, que desde 1935, começou sozinho, uma campanha junto a particulares e autoridades, para que os logradouros públicos naquela cidade, fossem transformados em grandes presépios coletivos, e que se tornou realidade em 1953. Hoje, tal festa é universal
O dia 25 de Dezembro
(voltando a 1856)
De manhã, abriam-se de par em par as portas dos oratorios, enriquecidos de obras de primorosa talha, onde se via deitado entre folhas verdes o menino Jesús, cercado de jarras de flôres e alIumiado por velas de cêra postas em castiçaes de prata, de vidro ou latão. Tudo isso era de um effeito magico.
Ceia, Melancia, e Família.
Era um sacrificio ser chamado para comer melancia, não dessas rachiticas, vendidas pelos ilhéos da Penha, mas verdadeiras melancias capazes de refrescar um batalhão e que custavam a modica quantia de quinhentos réis ! Ao jantar reuniam-se os parentes e adherentes, vinham de fóra e de longe os filhos e filhas casadas, todos se junctavam nesse dia solenne, em que se apertavam os doces laços da familia, essa cellula da vida social. Compareciam tambem os compadres e comadres, os amigos da peito e até á mesa dos patrões eram admitidos os caixeiros, que neste dia gosavam das honras de filhos da casa.
Uma ceia retratada por Debret em 1835
Contados! Só saiam tres vezes por anno: no Natal, na Gloria e na Paschoa ! Eram taes os costumes do tempo, em que os patrões, para tomar fresco no Passeio ou no largo do Paço. nunca levavam chapéo, para que os caixeiros não soubessem si elles ( patrões) estava perto ou longe !
Bons tempos em que a jaqueta era de rigor, e a gravata só usada por quem já tinha alguma cousa de seu. Pouco trabalhavam nestes dias os barbeiros. não por fôrça de postura municipal, mas por não terem tempo de ir á cara dos freguezes.
Barbeiros - 1835 - Debret
Iam tocar nas portas das egrejas em palanques ou coretos preparados.
As bandas militares nunca saiam para esse fim; era contra a disciplina. Quem não conhecia a musica dos barbeiros, aggremiação digna de um poema, e que desappareceu com o progredir da civilização ? Existiram dous typos dessa raça de heróes, dous ultimos Abencerrages que viviam alli na rua do Carmo, pacata e silenciosamente, contando aos posteros as suas brilhaturas não só na Musica. como nas sangrias e applicação de sanguesugas .
Arquitetura das Casas na Rua do Carmo em 1874
Presépios
E a visita aos presepes ? Os mais afamados eram os do Convento da Ajuda, o da ladeira de Sancto Antonio. tão bem descriptos ambos no romance de Macedo As Velhas de mantilha, e o do conego Philippe, na ladeira da Madre de Deus. Este teve a honra de ser visitado pelo rei d. João, o qual, como se sabe, gostava muito de festas de egreja e era inimigo de theatros; obrigado a ir a espectaculos. dormia a bom dormir e, de quando em vez, acordava estremunhado, perguntando aos cortezãos : já se casaram estes bebedos ?
Cesse agora o que a antiga Musa canta, para fallar do presepe do Barros, alli na rua dos Ciganos, presepe que foi a summa da arte, o Eldorado, o cumulo de tudo quanto havia de sublime, peripatetico e esplendoroso.
Imaginae em uma pequena loja de carpinteiro a cidade de Belém, onde nasceu o Christo, transformada em cidade moderna, construida em amphitheatro. com casas de janellas de grades de ferro, com vidraças de cutello, egrejas com torres e sinos, saloios e saloias dansando, gatos, cachorros, coelhos, pescadores, caboclos, jardineiros, toureiros hispanhóes, anjinhos de barriga para baixo, pendurados no tecto recamado de estrellas de papelão dourado. O sol e a lua ao mesmo tempo no horizonte, e no meio do firmamento uma grande estrella d'alva, cujos raios guiavam caravanas de camelos, que faziam parte da comitiva dos tres reis magos, que pareciam vir descendo com ar serio e magestoso de uma montanha collocada no fim do panorama. Tudo isso allumiado por velas que saiam de castiçaes pregados no meio das ruas, onde existiam lampeões de gaz só para inglez ver.
Havia tambem no centro um tanque pequeno d'onde jorrava a agua de um repuxo e onde peixinhos vermelhos saracoteavam de um lado ,para outro .
Via-se em uma lapinha deitado o menino Jesús, tendo perto de si S. José; Nossa Senhora e S. João Baptista, bois, cavallos, porcos, sapinhos e até leões - uma verdadeira arca de Noé. As pretas lá de casa diziam que aquilo era a cidade do Rio de Janeiro no tempo em que Christo andou pelo mundo; aquellas torres, umas eram da Candelaria, esta a de Sancto Ignacio do Castello, e aquella outra a da Penha; a montanha e Corcovado, e o lago era o do Passeio Publico !
Tinha o Barros um official de nome Paulino.
Dia 26 de Dezembro
O dia seguinte do Natal era o dia das indigestões, e os boticarios não tinham mãos a medir vendendo camomilla, oleo de ricino e noz vomica .
A meninada ficava de cama e de dieta um ou dous dias, findos os quaes estava-se prompto para a patuscada. Continuavam as cantatas ou trovadores da rua; mais tarde apparecia o bumba meu boi, as dansas dos pastores e entrava-se no Anno Bom e Festa dos Reis .
Dos trovadores desse tempo conheci o Anselmo, que ao som do violão era capaz de cantar um dia inteiro modinhas, todas differentes. São de seu repertorio: A saudade roxa, mimosa flôr -Qual quebra a vaga do mar - A gentil Carolina - Dizem que vejo e não vejo - Si os meus suspiros pudessem - Mandei um terno suspiro - Os mandamentos da lei do amor, etc ., etc ., etc .
Havia um grupo de artistas que eram insignes nas serenatas desse tempo. Era seu chefe o Goiano. Certa noite para poderem sair era preciso arranjar quem tocasse o bombo. Por acaso appareceu um estudante de Medicina, membro honorario do tal grupo. Acceitou, com a condição de não entrar em casa conhecida.
Apezar de nunca se ter visto em taes apuros o nosso futuro doutor ia indo menos mal; percorreu o grupo de foliões várias ruas e elle, meio occulto entre os companheiros, obedecia á batuta do mestre; entraram e tocaram em várias casas, sendo muito applaudidos.
Ao subir, porém, o farrancho as escadas de um sobrado, na rua Larga de S. Joaquim, oh horror! estava sentado no sofá da sala, rodeado por muitas moças, um professor da Eschola de Medicina !
Tirar a corrêa do pescoço, atirar com o zabumba e fugir pela escada como cão damnado, vendendo azeite ás canadas, foi obra de um minuto. Na rua um policia quiz agarra-lo. Para livrar-se embarafustou por uma casa, no fundo da qual, em um quarto, estava uma velha. tomando banho! O infeliz via por toda a parte o bombo transformado em bomba, e uma reprovação certa, si tivesse sido reconhecido.
E tinha razão. Um seu contemporaneo havia sido reprovado, porque tocava rabeca em novenas, para poder estudar; outro, porque um lente em um theatro o tinha visto vestido de roupa de côr; outro, porque ao avistar o professor não tirou o cigarro da bocca. Cachimbar. como dizia o velho Jobim, era o maior de todos os delictos, e quando se queria chamar um moço de máu e de perverso «até dizem que já fuma» era a ultima, era a suprema injuria.